segunda-feira, 5 de novembro de 2012

CAPÍTULO 1 - AS MADRUGADAS, PARTE 2



Depois de um certo tempo teve quem andou perguntando a ela quem ela era, e do que gostava, e de como gostava e como se sentia. E quando ouvia essas perguntas ela ria por dentro. “Como explicar uma infinidades de pedacinhos de vidros que a cada fração de segundo se combinam e recombinam?” Ela mesma já havia desistido de definir-se e entender-se. Quanto mais explicar-se a pessoas alheias...

Só sabia de suas coisas: Antes vivia, agora andava meio que sobrevivendo...

Tantas eram as verdades sobre ela refletidas em espelhos d’água, esvoaçadas em ventos uivantes, marcadas nos vincos das folhas de papel, e ainda nas folhas de seus jardins e plantas de vasos e canteiros. Como definir-se? Como? Talvez ela mesma não consiga reconhece-se às vezes, ou sempre... As multiplicidades implícitas nela, seguindo esbarrando em tantos “eus”, brincando de vida, rindo para o mundo, e rasgando-se, arranhando-se por dentro.



Ficou com inveja e saudades deles, aqueles rostos tão decididos e categóricos que via passearem pela rua, com tantas certezas embutidas em suas próprias convicções. E ela bem que tentou.... E sinceramente, quase foi. Mas sabe aqueles seres, quanto mais centrados ficam, mais se perdem? E acabou se esquecendo de quem realmente era...

Engaiolou-se, prosperou, mas perdeu o prumo, o brilho, o encanto, virou passarinho triste, cantando na gaiola, cânticos antigos de liberdade, com a esperança de ser de novo o que era, chamava a coisas que mal conseguia se lembrar mais.

Castraram ela, ela não sabia... E então seguiu vivendo a vida, daquela forma rotineira que a foi matando, e matando, um assassinato daqueles bem lentos e cruéis, do qual a vítima muitas das vezes mal percebe e der repente não se anima mais, perde o tesão.

Quando o universo só cabe efetivamente numa casca de nós naqueles livros tão famosos do Stephen Hawking, ela sente que precisa mesmo de um pouquinho de caos para viver, remexer, sacudir, essa explosão vulcânica que nasceu com ela, dentro de si... E seus eus andam leh chamando, e junto com eles, vem uma tentação, uma vontade louca, de sair correndo, unida de mãos dadas com ele. Deixando esse mundo de chatos para trás, sem olhar e nem ter pena deles. Para que tanta consideração?

Então ela andou tendo uns sonhos estranhos e esquisitos com uma palavra distante... Meio evasiva chamada felicidade. Acordou meio zonza, meio tonta e ficou lá, como a dama de copas que era se olhando no espelho, sem se entender direito. Tantos sonhos se compunham mostrando-se ruborizados na pintura da face, enquanto os dedos redondos contavam, mesmo sem querer, a infinidade de estrelas escondidas no peito, fixadas no firmamento, lincadas de uma forma que ela mesma não saberia explicar.

E há quem pudesse a olhar e ver que atrelados aos seus cachos enrolados a cintura corriam riachos revelando delicadeza e doçura, mas ela não era, nem tão doce, nem tão delicada assim...

Eram seus olhos, sabe o destino o porque o espelho do mundo, imensidão refletora de Deus contendo em si um mar de esmeraldas dançantes, e era por isso que as pessoas se sentiam bem perto dela. Ela, já não aguentava mais tantas responsabilidades...

Dentro de si, tinha uma voz que dizia:"Somos livres, mesmo quando não sabemos que somos." E ela tinha vontade de mandar aquela voz calar a boca, porque o mundo não era feito de tantas coisas boas ou esperanças assim... Talvez o mundo fosse um lugar ruim que fora posta e pronto, não haviam mais muitas considerações a se fazer a respeito.

E aquela voz, trazendo a luz, novamente voltava a tona, falando: “renascimento, renascimento, renascimento”. Ela suspirava cometas, já meio brava, e até chegava a sentir felicidade...

Ela sabia: Tem coisas que passam de pele para pele e de alma para alma. Ela, havia pego muitas enfermidade da alma por ai, e agora tentava se livras delas...

Lembrou-se então da primeira vez em que seu corpo uniu-se ao dele, enfeitou e o perfumou como um templo, ornamentando-o para recebê-lo. Ela então pegou suas mãos, elevou a seu coração, transformando-o em um deus, para que no amor sagrado se unissem e sacralizados. Seu amor havia ido embora... E havia se contaminado com as coisas sujas do mundo, assim como todas as outras coisas da sua vida, e lembrando disso, mais uma vez se entristeceu...

Todo mundo que já teve um grande amor e viu seus sonhos desmoronarem após uma separação sabe a dor e sofrimento que isso pode causar. Seres humanos são movidos por sonhos e expectativas. Todos nós, sem exceção , mesmo que inconscientemente buscamos um par, uma cara metade, um complemento. E seguimos nossas vidas sentindo falta de "algo", "alguém" que nos complete. Estamos sempre em busca daquela pessoa especial que possa ser objeto da dedicação do nosso amor. Um romance aonde nossos sonham possam simplesmente se plasmar, tornarem-se reais. Amar e ser amado, é um dos principais anseios da alma humana.

Mas amar e ter seu coração partido dói de mais. Causa traumas, um sentimento de frustração e muitas vezes de não aceitação do fato de que aquela relação simplesmente acabou, não existe mais. Sonhamos com o para sempre. Com o eterno, uma separação é dolorida porque vemos um castelo de sonhos transformar-se em ruínas e muitas das vezes vemos nosso coração ali, jogado no meio de todos aqueles escombros. Vem então as auto culpas e aquelas inúmeras indagações; "Será que se eu tivesse feito diferente..."

E ela havia vivido suas histórias...

Mas sabia, que antes de mais nada era uma mulher, e como tal, um poço infindável de sonhos e mistérios, fundidos as aventuras da noite, as doçuras da lua, ao brilho das estrelas, forjada a força do sol.

Suas histórias teriam sim um impacto considerável sobre sua vida, pois em grande parte, somos aquilo que vivemos e vivenciamos....

Sua feminilidade espalhava-se em curvas, sob as ondas do cabelo, nos entornos das pernas, nas voltas das coxas, nas unhas pintadas, na face ruborizada, nas roupas coloridas...

Nos seus quadris, abriam-se mundos ocultos, com tantas aventuras e noites de boemia e outras tantas menores mais muito mais valiosas de amor. Ladeavam prazeres proibidos e ainda aquele sexo guardando no coração, de momentos mais especiais.

Sabia que cada mulher, é em si uma sacerdotisa lunar, mesmo que negue a isso, ou negligencie a si mesma. São as mulheres os encantos estrelares com quem sonham os homens, mas que poucos conseguem revelar!

Cada mulher, um segredo sinuante, querendo contar, mas guardando, e então atordoando, mantendo suas chaves longes de quem as saiba usar. Mas ela... Ela há muito havia jogado suas chaves fora, ou perdido em algum lugar, e agora o feitiço virara contra o feiticeiro, e nem ela mais, conseguia se abrir para se encontrar.

Clarice Ferreira


Um comentário:

  1. Sofro de depressão, recomendo que seja cauteloso com remédios, leia as contra indicações pois muitos dos remédios podem amenizar a depressão mas pode causar dezenas de outros problemas

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