Recordações doídas permeavam a memória volvendo-se e revirando as latas de lixo do presente. Ela lembrava daquela criança que se sentia tão sozinha, porque sozinha ela estava. E enquanto o mundo e as paredes da casa desmoronavam ao seu redor, ela sentava-se encolhendo-se no quarto, abraçada aos joelhos, rezando, implorando para Deus para fazer a dor passar e todas as coisas ruins irem embora. Talvez tenha sido nesse momento que desenvolvera sua fé e esperança.
Sabe, tem alguns momentos da vida, aonde o caos é tão grande que só existem duas opções, tentar ou desistir. E ela tinha coisas tão boas em seu coração, mas se sentia sufocada com o breu que se mostrava la fora. E ela queria tanto que as pessoas a escutassem, mas a vontade dela nunca era ouvida.
Ela achou prazeres em coisas licitas, e foi fazendo um suicídio lento, abrindo sua pele em estrias, estourando o estômago em azias...
Mas sabe... Eles não entendiam quando ela falava. Falava que estava pesado de mais e que ela era só era uma criança...
Ela queria tanto ser uma criança.
Se refugiava aonde dava.
Aonde dava.
Até que aprendeu, aprendeu a soterrar sua dor, até de si mesma. Para um lugar desconhecido de seu corpo, aonde nem mesmo ela pudesse enxergar o quanto sofria. E foi assim que virou muralha e criou uma falsa força, que a todos impressionava.
Ela tinha rancor de todas aquelas pessoas que se calaram diante seu sofrimento. Elas podiam ter feito alguma coisa. Poucas palavras bastariam, mas elas estavam centradas de mais em seus próprios umbigos para fazer alguma coisa.
Então ela quis culpa alguém. E achou inicialmente que seu pai era o maior culpado. Anos depois, quando ele morreu, ela sentiu como se tivesse perdendo parte de si, e quem mais a entendia.
Ela o desculpou por todos os seus fracassos e tropeços, mas quando criança, não o perdoara por ter quebrado sua imagem de herói.
E isso tudo revirava na sua cabeça. E revirou por anos, décadas. Ela sempre afastando todos os pensamentos, soterrando, como de habito fazia, até que chegou uma hora aonde todos eles deram as mãos e resolveram vir à tona juntos. Lindo, não? Não, foi muito feio.
Ela tinha inveja daqueles que faziam poemas saudosistas sobre a sua infância. Queria tanto poder ter esse tipo de sentimento. Mas se tem uma fase que se pudesse tiraria, riscaria do livro da sua vida seria essa. Foi dor, por tempo de mais, por anos de mais.
Coisas incontáveis. Coisas que tinha vergonha de contar até para si mesma. Só ela sabe o que sentiu. E nunca recebeu um “me desculpa”, foram só culpas, só culpas, só culpas.
Clarice Ferreira

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