Ela fumava tum tanto de tudo, as incertezas, os adeus, as despedidas e os finalmente. Vivendo meio a esmo, mas com muita, muita fumaça, vendo no presente e fumando, o que quer que fosse preciso sem se importar muito com os seus pulmões. Odiava essa falsa hipocrisia. "Vamos todos ser felizes e fingir que está tudo bem." Não era bem assim que as coisas funcionavam, não para ela.
Não trazia respostas, não trazia certezas. Abria portas, fechava portas, janelas, cortinas, livros e adereços... Virava as costas, ia embora, guardando tudo em gavetas hermeticamente fechadas, com um tanto de vácuo para impedir que a sujeira mental e física saísse. E jogava as chaves fora, para um depois, bem depois, tentar abrir. Sem as chaves? Que ironia!
Quando pisava firme é porque acreditava e agora fumar era o melhor que pudesse fazer, bem superior aos seus discursos por hora tão confusos e conflitantes. Ninguém a entendia. Nem mesmo ela mesma... Dentro de coisas incoesas realmente, torna-se quase impossível encontrar-se as certezas, não que ela se importasse com isso, é claro.
Passado, presente, futuro, tantos tempos que não ligava, engrenados a nado nessa vida bandida que vinha tentando deixar um pouco mais leve com sua fumaça.
E jurava! Jurava que o ar não precisava ser puro, queria a penas respirar um pouco, ela mesma, ainda que um tanto nebulosa, poluída, turva. A pele já não era mesma. Escamava em rios suscitando suspeitas a olhares mais atentos. Há quem diga que ela fica mais bonita com a tristeza, talvez seja porque sempre dela foi amiga. Sem rostos redondos, risonhos para agradar a coisa fica mais familiar e ela se expressa melhor, assim, radiantemente blue.
Momentos felizes virão, este com certeza, não era um deles. Não que ela se importasse com isso. Torno a dizer que ela não dá a mínima para ela coisa inexistente chamada felicidade. Era o que tivesse para ser. Era o que tivesse para ter, sem meias palavras, sem dedos.
As músicas de sua playlist andaram mudando, ganhando tons um tanto quanto cinzas, meio esquisitas, é certo, e ainda assim, tão, tão viciantes e agradáveis. Poderia alguém ser viciado em sua própria tristeza? As águas revoltaram-se, reviraram-se remoendo lembranças de coisas que nem mesmo ela saberia explicar. Sabe... Eram certas memórias que ficavam lhe vindo a cabeça, então ela pegava sua mão, passava sobre elas tentando as afastar, mas suas memórias eram de carvão e quem já tentou desenhar com ele sabe bem que não há nada pior para tentar apagar. Suas unhas já estavam negras, a face, o rosto, os pés, o próprio coração, tudo meio borrocado de carvão, sem ter muito jeito para limpar.
E ela pedia, ela mesma de novo para respirar seus sujos segredinhos escondidos, advindos dali, daquele local quando ela vendia sua imagem do jeito que bem queria se fazendo de transparente. Falsinha. Mentirosa. Enganadora. Sem jeito. Sem solução.
E quando você achar que a conce, saiba que não sabe nem mesmo a vírgula que se esconde por de trás de seus tantos versos. Ela é reverso dela mesma, se apresentando ao contrário por ai, por tantas ruas e avenidas. E sabe, todos gostam dela, porque ela sabe bem dizer tudo aquilo que você sempre quis ouvir. É quase uma ciência. Cientista das mentiras ardilosas. E agora ela chora? Chora por que? Se a tantos ela fez chorar com seus joguinhos de faz de conta...
Mas a sua alma era velha, por de trás da brilhante pele sem rugas ela trazia consigo dores e feridas escondidas vindas já de muito, muito longe. Fazia tempo que as ocultava sobre as roupas, os sorrisos, os abraços e os "faz me rir porque está tudo bem". Positivista de fachada, ia ao chão quando uma peça mínima saia do lugar. Ia mesmo era tudo dar errado.
Ela era um tanto daquilo que trazia de suas histórias e aventuras bem e mal sucedidas misturadas com mais um bom bocado de sua carga genética não muito favorável. A parte enganadora era de lá, mas ela também não fazia muita força para lutar contra isso. E agora lá estava ela, tão perdida em suas próprias reflexões e pensamentos... Não pense que alguém vá lhe dar a mão. Não vão, não não vão. Ela não esperava por isso, sabia muito bem todas as coisas boas e ruins que já tinha feito. Era quase uma dicotomia, dupla personalidade. Será que isso existe? Vamos esperar que o psicólogo diga a ela...
E com tantos se nãos latejando nas temporãs, tripudiando e saltado de dentro para fora, ela estava mesmo era repleta de demandas com as quais pensava não poder arcar, mas tinha! Cabia então a ela, e só a ela, que era a única que realmente sabia, todas as faces de suas histórias dar as notas e pontos finais ela. Por hora, ela ainda não tinha forças. "Vamos olhar um pouco mais para dentro antes, dentro deste livro de lembranças."
Os rins já doíam, mas ela continuava, tentando manter em segredo, soterrando nos porões da memória tudo aquilo que tanto a fazia mal. Sabe, era quase um masoquismo, uma grande e enorme caixa de pandora, ela abria, deixava que algumas pestes saíssem e a picassem, espalhando os sofrimentos pelo corpo e depois a fechava, porque já não a aguentava mais, e então, nova e novamente sucessivamente em inúmeros momentos esperando que uma hora finalmente isto tudo acabasse.
Das coisas que trazia e carregava consigo, infinidades de contas suavemente tecidas entre coxas e quadris, enlaçadas pela cintura, entre os cabelos, muitas são como nuvens que vemos e sentimos suaves. Às vezes um tanto quanto etéricas, e não tão perceptíveis assim à mãos calejadas e olhos limitados...
No meio do nevoeiro muitas coisas se confundiam, unido-se tempos em momentos onipresentes, com um torpor circundante em delírios que podiam simplesmente atravancar-la num estado mental inexistente. Mas se era vida, e vivia, levando consigo um tanto de todas essas coisas, um tanto de tudo, era também um misto confuso de pequena célula vivente em Gaia, e talvez em Gaia tenha se perdido para nunca mais achar.
Quem disse que queria ser encontrada?
São infindas as possibilidades desse universo pagão e profundo que se achava. As delicadezas e nuances corrompidas do peito delinearam novos olhares e possibilidades antigamente adjacentes as escolhas corretas...
O mundo não irá acabar, mas certamente, boa parte dele hoje, se encerra nela.
E por fim, posso dizer, que era com sonhos e sem sonhos que seguia dando procedimento aos inúmeros acontecimentos da vida. Muitas das coisas que ocorriam, ocorriam ao "acaso", frutos mesmo da má índole de costume, eram reações adversas de sua própria personalidade. E ela se entristecia, porque muitas das vezes não tinha o menor poder sobre elas, e então se perdia ainda mais em si mesma, ficando cada vez mais próxima de tudo aquilo que menos queria ser. Há alguns anos atrás já tinha visto isso acontecer com seu irmão. Ele nunca mais voltou. Será agora a vez dela? Não, ela não queria, tentava como uma náufraga lutar, nadando para a superfície com um grande chumbo de metal amarrado aos pés, tentando manter a cabeça erguida, e ainda sendo, mesmo que em sombras e em silhuetas aquilo que havia traçado para si e seu próprio destino logo na primeira infância.
Absolutamente tudo ocorria. Porque tem tempos em que sabemos o quanto tememos viver e olhar-nos nesse espelho chamado vida. Tantas aspirações e sonhos partidos em pedaços... Então seguia, esperando que o amanhã chegasse de repente sorrindo, revelando salvações inéditas e inimagináveis para sua personalidade, um carro tão difícil e ardiloso de conduzir. Tinha ainda, um pingo de fé, mas que sabia, precisava ser aumentado.
Clarice Ferreira

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