segunda-feira, 5 de novembro de 2012

CAPÍTULO II - E ELA IA...




Já há tanto tempo que ela ia com o vento e com ele aprendia, apreendendo nuances entre os grãos de areia da praia e pedras lapidadas dos vasos reclusos de seus trabalho lá área dos fumantes. Dançando com o limbo, sorrindo para a dor, era tanta coisa aturada e pseudo deglutida naqueles meses infernais em que vivia. 

Tantos amores foram com o tempo, aquele verdadeiro, ela tentou guardar para que sagrado, nunca mais o esquecesse. Contudo suas próprias falhas o corromperam, e ele se foi, junto com todas as outras coisas... 

Era amiga da chuva, rios inteiros compunham seu corpo, águas que podiam mudar conforme as calmarias, conforme as tempestades... 

Não tinha certezas, verdade mostravam-se completamente relativas a essa altura da vida, e isso a confundia e angustiava por de mais. Sabe aquela sensação de se estar flutuando no abismo com uma nuvem prestes a se desfazer e lhe soltar... Ela puxava o ar, mas ali, aonde estava, era denso de mais, e ela mal conseguia respirar.


Estava vivendo mesmo desprendendo suas pétalas, deixando que o sussurrar da noite e o brilho do sol guiassem seus passos, sem se importar muito com as consequências. Interrogações latejavam pela têmporas. Ela, olhava para os lados, percebia que os outros notavam, e então tentava as silenciar no coração. Ainda não era a hora, a ordem agora, era aguardar, e fingir ser feliz enquanto isso. Mesmo que isso significasse morrer por dentro. 

Ela queria mesmo gritar! 



Não podia. 

E então andou reinventando-se, recriando-se em múltiplas mentiras sortidas para a vida. Plasmou até algumas delas... Para além das incertezas, sonhos e mais sonhos natimortos... 

Em alguns momentos, quase se achava, quase se encontrava, quase podia se sentir. Mas ela não teve coragem o suficiente para vive-los... 

Jurou que jogou as ilusões escada abaixo, que tinha arrancado o peso, que tinha ganhado asas.... 

E agora o corpo leve flutuava, rindo no meio de tantas nuvens confusas, coloridas, misturadas, antigas, esvaindo-se... 

Fluídas como o tempo... 

Longe das expectativas. Coração ao sol, mirando a felicidade. 

Foi só um momento... 

Mais uma vez ela falhou. Faltou coragem para olhar-se no espelho e viver as coisas as quais realmente acreditava. 

E então era isso, ela transpunha os oceanos... Engolia as marés. Iludia as sereias. Em ondas e ondas de emoções trincadas, sobrepostas, revoltas, ás vezes calmas.... Delirantes marés psicodélicas do amor ao sexo, do sexo ao amor. Da paixão a razão, da razão a paixão. A frieza passando longe, dava graças, a mulher do mar. Despreocupada, ela dançava nas marolas. 

Máscaras mansas sobre aqueles traços bem delineados, aparentemente calmos e alinhados. Brancos, curvilíneos e vivos como sol. Continha em si mesma, to o universo. Denso e tenso. Amoroso e caloroso. 

Energeticamente aglutinada em vertigens sobre a pele de seda. Você poderia sentir os brilhantes que a compunham se ela a permitisse tocar... E talvez ficasse um tanto atordoado, sem entender o que era exatamente aquele ser mestiço, que continha um tanto de tudo, profundamente movido pela vida. 

Pela sua cintura despiam-se nereidas sensuais alegres, livremente dançantes. Seus passos sincronizados ao sol, brilhavam a noite, quando ela, clandestinamente namorava a lua... 

E era assim, sem muito pudor, mas cheia de amor que vivia, volvia e revivia, brincando com a vida. 

E a vida a feria, cada vez mais. Cada vez mais... Ela ia perdendo o brilho, a cor, a sintonia. 


E ela cantava, pegava seu coração nas mãos e cantava. Tudo o que teve e não tinha mais. Quando a vida clamou por renovação, ela depiu-se de suas velhas roupas, deixando-as pelo caminho, mas na esperança de que agora s coisas finalmente desses certo. 


Meio camaleônica  cantava canções pela vida, alargando emoções, transpondo batidas, deixava que os ritmos a movessem... 

Ai de quem se enganou e não percebeu que a eternidade é feita de momentos transitórios! O que amamos hoje é apenas um espelho, do que temporariamente é melhor para nós. E ela sabia disso, e como sonhava com a eternidade, e amava o para sempre, chorava dentro de si, almejando o impossível para sua vida. 

O que ela, a vida pede, revela ao coração. Não há equívocos .Apenas escolhas. E quando se escolhe errado... 



Os cânticos de dor nem sempre precederão as grandes odes de felicidade! 

E então ai está a tal dádiva do viver exibindo-se sorrindo em cada pequena parte, em cada raio de sol e a cada vez que dia rompe a noite e ela acreditava em todas essas coisas, mas martelava em sua cabeça incessantemente porque não conseguia mais senti-las. Parecia que tudo o que tinha de divino e intimamente conectado dentro de si a algo mais elevado a havia abandonado e ido embora. 

Ela procurava e não encontrava, suas razões para viver e ser. 



Não havia perdão. Não havia solução. 

Como um sopro em nossa jornada, ela sabia, isto aqui é apenas um momento esvaindo-se junto as horas, aonde vidas e vidas virão, e onde ser feliz é apenas uma escolha, para aqueles que efetivamente tem esse direito. 

Ela não se sentia mais digna de felicidade e nem de muitas coisas. Havia tido muitas oportunidades e chances... Seu tempo, já havia passado. 

Tantas vezes veio da noite, como se da noite nunca houvesse saído, debruçando as estrelas seu próprio destino, se confundindo ainda mais. Ela acreditava em tanta coisas, e tantas coisas e de repente, quando parou de acreditar, viu-se flutuando sob um nuvem falsa de convicções inexistentes, e sentindo-se perdida, viu seu mundo desabar. 

Mas afinal de contas, o que dizer da vida quando ela oscila, bifurcando-se pelo caminho... Há uma certa ironia divina apontando desníveis entre tantas doutrinas e estradas de programação. Tudo aquilo que você ou aprende ao longo da vida, pode um belo dia revelar-se sem sentido sem razão, entretanto quando as suas convicções são seu chão, e elas lhes são tiradas, ou ainda, simplesmente percebe-se que elas talvez não sejam tão verdadeiras assim, cria-se um fissura na alma, muito, muito difícil de se curar. 

Ela tinha sua alma partida em pedações, com farelos e migalhas jogados ao seu entorno, prontos para serem pegos e recolhidos por abutres e párias. 

Mesmo ela em migalhas, ainda valia alguma coisa... 

De certezas ele estava vazia, quando tudo já tinha virado e revirado e remexido, somente o bom fazia-se ou ainda se parecia realmente certo diante de seus questionamentos e emoções. 

Na corda bamba, o coração aperta, o medo permeia a mente, melhor mesmo é seguir em frente, sem se parar para pensar muito em tudo o que se está acontecendo. Parar nessas horas pode ser muito perigoso. Uma mente confusa pode manter-se ativa por inercia em movimento, mas quando é parada, ninguém sabe ao certo as reações que apresentará... 

E posso dizer que ela temia a solidão assim como ao silêncio, porque ambos gritariam em sua cabeça que tudo estava errado, e ela definitivamente detestava essas vozes! 

Era a Senhora Rainha do Gelo, fingindo tão mal entre nebulosas sentimentais perdidas em gotículas expelidas pelo ar, escondendo oceanos e rios profundos. Águas calmas e translúcidas e densas e turvas. Nos olhos dela, um arco iris dizendo assim:” sensibilidade, sensibilidade, sensibilidade” 

E ela dançava, a rainha fria do gelo, tão desesperada para esconder-se debruçando-se sobre suas próprias mentiras! Silenciosamente observando, cheia de inveja, vôos de liberdade! 

Não há muito para se orgulhar, não? “Não, não há.” “O que houve ficou esquecido, empoeirado em gavetas do passado, sem muita razão para coexistir junto ao presente.” 

E eu dizia a ela que lamentava, mas não haverá perdão. Geleiras inteiras iriam derreter-se! Transformando-se em rios de sacarina de dentro para fora, de dentro para fora, em círculos, em torno de si. Até que o inverno torne-se verão e ela aprenda o que realmente é, de verdade. 


Clarice Ferreira

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