Via as pessoas mirarem tanto em suas vidas, tantos objetivos, ela já fora assim, esplêndida, brilhante e reluzia, as pessoas ficavam encantadas com a sua força, o seu ar altivo a sua incrível capacidade de se reerguer-se e recomeçar. Ela si viu como uma fênix, mas de tantas vezes que renasceu das cinzas acabou ficando presa a elas. Já não tinha mais volta e ela pensava incessantemente em mil maneiras e formas de dar um fim a tudo isso, mas tinha sua mãe e ela tinha que manter-se viva, porque só de estar viva já dava um sentido, uma alegria, para aquela mãe conseguia ama-la incondicionalmente apesar de todos os infindos pesares. E como pesava, e como doía, rever e revirar-se sobre o presente e o passado todas as manhãs, todos os dias.
Há um tanto tempo seus pulmões perdidos doíam Ela catava contas pérfidas no escuro, cantarolando canções tristes e mentia para si mesma dizendo serem pérolas. Comia as cinzas de sua própria alma e as digeria em certezas mortas espalhando-se em partes putrefactas na escuridão da noite...
Rolava nua sobre si, parecendo não arrepender-se e partia-se tantas, tantas vezes! Escutava-se e jurava
ser a própria terra seca....
Ela procurava pelo que não podia, abandonava a todos e até a si mesma. Como se importar com quem não se importa? Era isso que ela queria dizer a eles, para que eles a deixassem um pouco e assim cuidassem de suas próprias vidas que talvez valessem mais a pena. Tinha os olhos já muito pesados de sonos acumulados provenientes de inúmeras madrugadas mal passadas, reviradas pensando na vida e na morte. E se tivesse um pouco de sorte a tarde conseguiria dormir mais um pouco.
Do dia ficou com medo, e ficou mesmo tão lunar que era a noite que se expressava melhor, ficando até um pouco contente, normal.
Uma pequena colombina dos traços fincados e firmes com risos de serpentina jogados ao ar, quem habita este seu sorvedouro de atas seladas guardadas a flor da pele? Saberia ela se descrever? Fundidos a seus olhos verdes desejos sorrateiros a luz do mundo. traiçoeiros a seu próprio coração, que ás vezes ela mesmo se confundia, e não sabia ao certo muito bem o que tem e o que quer.
Amante sonsa das adagas! As coisas não são tão óbvias assim quando se trata dela.
Velada as suas máscaras escondem-se segredos sujos, torpes, retidos as claras, amarrados a tantos enredos...
Ela lembrava da história de Perseu, que tinha suas vísceras devoras todos os dias, e depois novamente reconstituídas e voltadas de novo para o lugar e novamente devoras, assim num processo ininterrompido de dor e se perguntava quando tudo aquilo iria acabar e teria um fim, porque simplesmente nascera sozinha e assim, desta forma poderia desfazer-se de si mesma a hora que bem desejasse. Ela odiava a eles e como eles não compreendiam toda a sua dor, sua história e seu sofrimento. Era só ela que sabia, e não adiantava conversar sobre o assunto.
Já não aguentava nem mesmo permanecer seu quarto, e si mesma e andava pela casa procurando por um canto um pouco menos doído para poder assim, desta forma expressar um pouca mais sua dor em palavras. Tinham várias horas do dia em que gostaria que simplesmente as pessoas a deixassem em paz, a abandonassem, ela sonhava com a paz e a paz já tão distante acenava... Acenava...
Ouviu dizer que junto ao verão as pétalas rosáceas já se iam, então pensou em pintar rosas, e achou que talvez as rosas pudessem lhes ajudar a colorir um pouco e retomar com sua vida e em sua estrada sozinha da solidão. Foram embora as cores das folhas, o brilho encantado da estação, o direito a liberdade das escolhas. Passarinho criado livre, quando fica engaiolado morre, morre, morre...
Um tanto quanto de tudo, junto ao resplandecer da alma emudeceu-se, ela se calou.
Quanto mais as pessoas tentavam a fazer sentir- se bem, mais ela piorava entrando mais e mais fundo dentro dela mesma.
Era essa sensação que senti logo apos acordar, com mil facas dilacerando seu coração, uma dor da alma tão penetrante que mal podia a descrever e dizer aos outros como se sentia era o pior de tudo, então mantinha-se calada, era o melhor que podia fazer pelo seu próprio bem e pelo bem dos outros, talvez sua doença fosse contagiosa. Mal de amores, mal de dores, não queria mandar recados, não queria enviar acenos, só queria mesmo ficar sozinha, meio blues, e o que tem isso?
Ela tinha muita raiva e muito ódio guardado em seu coração e pensava em inúmeras formas de acabar com aqueles que a tinham feito sofrer, pensamentos nada cristão que nem tinham muito haver com sua índole, mas que vinham a cabeça e ela, magoada, tentava converte-los em palavras.
Pensava naqueles que haviam chacotado de sua dor, sem entender o mal que sobre ela se abatia. E o bom da vida é que ela dá voltas e voltas, retornando ao ponto de início, nova e novamente, e um dia eles saberiam como ela se sentiu. E se arrependeriam profundamente por tudo que a tinham feito.
Pegou algumas pétalas caídas ao chão, segurou-se firme a uma, como se estivesse segurando a si mesma e a olhava como um espelho, acariciando-a "Tudo vai ficar bem". "Um dia..."
Balançando-se num certo jeito de ninar-se cantava baixo tudo o que teve e não tinha mais, dilacerado pelos infortúnios do tempo, da vida. Quando a vida clama desmoronar-se como aquela temida carta da torre do baralho, não há jeito e assim tudo vai ao chão. Ela sentia falta do seu tarot. De como com ele conseguia ver as coisas mais claras, lúdicas e tilintantes. Imaginava os arcanos em sua mente, como se pudesse abrir tantos jogos pensando, pensando...
A Torre de Babel desmoronou.
Bum! Não adiantava chorar.
Clarice Ferreira

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