Era estranho porque ela parecia ter uma ligação confusa e intensa com o amor, esperava dos homens algo aparentemente elevado, que poucos poderiam lhe dar, mas no fundo, parecia que buscava fora o que tanto queria dentro...
Era isso, ela buscava essa tal fusão que só mesmo em sua mente seria possível. tantas foram as decepções, ano após ano..
Ela amou, e amou aquele amor dos artistas, entregue, flamenco, dançante, apaixonado, aquele amor que joga para cima, que joga para baixo. Que exausta os sentidos, que mexe dentro, que leva-nos a loucura.
E ela pedia para que eles entrassem nela, sem pudores, pelo seu ventre, entrelaçado a suas mãos. Pedia para que eles a enxergassem, e vissem como ela mudava junto das fases da lua. Crescendo nas cores, cheia de amor, e minguando suada, ou ainda especialmente negra, abarrotada de mistérios...
“Vês meus pés? Corro sem pressa, porque o vento em seu colo me leva. Lavrando sulcos entre as coxas.”
E eles recolhiam, porque não entendiam, só achavam bonito, mas muito estranho. Aquela mulher que parecia doar-se tanto, sendo um turbilhão de emoções.
E o que sentia dentro não tinha graça e era quase uma agonia... Alastrava - se distribuindo-se quando eles vinham, atacando quando eles partiam. E foram tantos eles que passaram por seu coração, alma e cama...
Ela achava que o amor poderia dar sentido e elevar, mas esquecia que a peça que faltava estava perdida dentro dela. E então ia, com a languidez insossa da papoula e como ela o vício que desperta, invadindo teias. Indiscreta entrando por entre entranhas poluídas de anis. E por mais que eles dissessem que sabiam, era ela o seu sangue, as mãos tentando interferir em seus caminhos, que tão distantes ainda a tocavam profundamente.
Padecia de dor, virava a cabeça pedindo “Por favor solidão não me desça.”
E amou, amou gostoso, flutuando em pedaços de algodão. Inúmeras memórias deliciosas das quais tinha saudade.
Lembranças...
“Olha essas ruas escuras, lotadas de espelhos..., Meu corpo luminoso ilumina os brilhos multifacetados dos vidros, transmutamos os cacos em tochas. Olha a fogueira escondida no meio da noite. É este teu grito selvagem que quero, sem ninguém para olhar, quando somos só nós dois. Um iluminando um ao outro.”
“Olhos brilhantes, esmeraldas cintilantes entre as ondulações do mar. Naquela tarde, era seu corpo o seu astro a levar-me num lastro estrelar de prazeres proibidos. Mordiscando o sol, lambendo a lua nua...
Os lábios ladeando o dorso em arrepios da nuca ao ventre, suscitaram ciúmes entre as sereias mais sedutoras! Enquanto, encorpados rios melados faziam-se entre as coxas minhas e suas, entrelaçadas...
E nos fundimos junto a noite, sem pudores, libertos num gozo alto sobre todas as marés!
A tarde foi nossa. Lembra da lua sorrindo no céu? Abrindo-se entre a suspiros e orgasmos? Fomos nós os culpados. A Lua nunca mais será a mesma...”
Da coisas que trazia e carregava consigo, infinidades de contas suavemente tecidas entre coxas e quadris, enlaçadas pela cintura, entre os cabelos, muitas são como nuvens que vemos e sentimos suaves. Às vezes um tanto quanto etéricas, e não tão perceptíveis assim à mãos calejadas e olhos limitados...
No meio do nevoeiro muitas coisas se confundem, unido-se tempos em momentos onipresentes, com um torpor circundante em delírios que podem simplesmente atravancar-nos num estado mental inexistente. Mas se era vida, e vivia, levando consigo um tanto de todas essas coisas, um tanto de tudo, era também um misto confuso de pequena célula vivente em Gaia, e talvez em Gaia tenha se perdido para nunca mais achar.
Quem disse que gostaria de ser encontrada?
São infindas as possibilidades desse universo pagão e profundo que se encontrava. As delicadezas e nuances corrompidas do peito delinearam novos olhares e possibilidades antigamente adjacentes as escolhas corretas...
O mundo não irá acabar, mas certamente, boa parte dele hoje, se encerrava nela.
E era com sonhos e sem sonhos que seguia dando procedimento aos inúmeros acontecimentos da vida. Hora as coisas lhe pareciam fáceis e simples, ora tudo soava confuso, meio eloquente, meio dilacerante. Porque era difícil aguentar todos os acontecimentos da vida.
A vida ás vezes lhe feria tão doidamente que ela tentava externar, mas não conseguindo deglutia, até que seu estômago pifasse em profanas indigestões.
Sucediam-se então mistérios tecidos em fios de infinito, plasmados no olhar, tão, tão distante... Disfarçando com risos e sorrisos os segredos duros e as decepções. E entre dias e noites profunda, sois e luas amargurados E hora felizes que seguia, meio sem rumo, meio sem chão e até inspirada... Como se as coisas não tivessem tanto alento quanto desejasse...E vivia,em alguns tempos vivendo, em alguns tempos existindo.
Sobrevivendo.
Porque acontecem tempos em que sabemos O quanto tememos viver! Viver essa vida que dói que sangra, amargura, partindo em pedaços aspirações e sonhos.
Tudo ocorria, então vivia, esperando que o amanhã chegasse sorrindo,revelando novas formas e histórias de se ser no presente, acalentando e reformando, reformulando as dores do passado.
Tinha ainda guardado no peito um pote de esperança...
E tinha dor, dor de mais. Dentro. Fora... Tudo ia meio de cabeça para baixo, esvaindo-se junto a chuva.
Ela o olhava cegamente, sem nunca tê-lo visto e então pedia que ele viesse ser. Mesmo sem entender esse oposto que lhe complementaria tornando-se um, sendo dois. Mistério eterno da unidade sagrada e tão, tão contemplada em livros e escritos antigos... Amiga noturna, logos solar.
Somos aquilo que somos, porque fomos feitos para o amor, para a fusão e para a vida. Mesmo que não possamos entender o por que permanecemos separados, dia após dia, noite após noite. Esse amor sagrado que não depende de toques para se concretizar e eternizar-se no espaço tempo...
Olhava o sol, olhava a lua, e pensava que podia ser como eles que não se tocam, mas se amam e é tão profundo o amor, que podiam se sentir, um ao outro, mesmo longes, mesmo distantes.
Os fios do universo a guiavam, abrindo-se em flores pelos caminhos, quando se mentalizava, , e percebia a presença do divino aqui e agora, no que sentia,, no que era.
Sem que as mãos dela se unissem as dele, seus coração o esperava, estariam fundidos para além das barreiras do tempo. Porque algo se fez, que ainda não compreendia bem, e se fez tornando-os eternos amantes consagrados a eternidade. Mesmo sem nunca terem se visto...
E agora ela se perguntava… “Acabou? Eu encontrei? Será que era isso que eu realmente queria. Então eu penso... O que eu realmente procuro no outro?
Procuro a mim mesma.
Como um espelho para enxergar a minha própria alma. Porque só podemos ver a Deus no próximo. E ao me fundir com o masculino, o meu feminino se completa.
Um equilíbrio de pólos. Um casal que se completa e se potencializa, é isso que eu procuro! A Dama e o Cavalheiro! Mas será que eu tenho coragem de viver isso tudo?
A fusão me é tentadora e tem sido uma busca incessante. Mas é assustadora e profunda.
Esse instante em que você não é só mais você e o outro não é só mais o outro, os dois formam juntos um novo elemento. Isso é alquimia! A alquimia do amor!
O segredo de Plotino, a Sophia de Platão, A Afrodite de Safo, A Ísis de Hórus, A Lótus de Budha, A ressurreição de Jesus…
E penso que era isso que Deus queria dizer quando criou o homem e a mulher. A simbologia da costela de Adão… Um casal, sendo um parte do outro…
Queria que fossemos pares, e nos fundíssemos, dando origem a mais um…
Santíssima trindade…
E essa é a verdadeira razão do amor… porque sozinhos não podemos voar… sozinhos nossas asas ainda estão quebradas!
Penso que o amor, a verdadeira união de corpos e espíritos é um presente que a divindade concedeu a seus filhos. Uma das formas mais lindas de organização e reprodução da forma de vida do universo: A Família.
Quando realmente encontramos o outro, podemos enxergar a imagem de nosso semelhante, enxergamos a nós mesmos e assim alcançamos a Deus. E então amamos… da forma mais profunda, poética, divina, bela e assustadora que se pode amar!
É preciso ter coragem, é preciso ter ousadia… é preciso pensar em Eros… e mais do que pensar, ser como um vaso cristalino, pronto para receber e perceber o mais belo, o mais divino de todos os sentimentos…
Porque é por amor que as galáxias se sustentam, e cada célula de nosso corpo se mantém organizada em uma forma, é por amor que há vida… E se há vida… é para ser vivida, e só vivemos realmente quando encontramos o verdadeiro amor!
E eu que sou ainda pequena… miro céu e as estrelas e em silêncio oro a Deus. “Meu querido pai… Que eu seja digna de amar…” “
Tantas eram as suposições a cerca do amor...
Ela achava que tinha seu coração nas mãos, como se fosse simples juntar em pequenos recipientes tantos, tantos sentimentos. Então agia como uma tola sorrindo ao mundo e guardando segredos comprimidos no coração...
Velava sonhos ocultos, como quem guarda pérolas em cofres presos, oprimidos. Mas esquecia... Esquecia que um coração vivo precisa da liberdade do sol e do dia para reviver e renascer a cada dia, a cada nova estação...
E foi assim, que seu coração ficou preso, estagnado. Morreu quietinho, sem alimento, sem emoção...
Ela sonhou com o amor. Desejou o amor. Leu sobre o amor. E até achava ter amado.
Tem coisas que passam de pele para pele e de alma para alma. E seus amores, o que trocou com eles? Não seriam esses os motivos das dores? De boa parte das dores? Porque quando amava se fundia, se misturava. Os corações entravam e saiam triturados em um grande liquidificador de emoções.
Ela dizia: “Meu amor é desapegado não se retém, se funde e às vezes vai embora…”
Será verdade? Dizia amar todos os homens que conheceu e eles ter entregue seu corpo como portal para sua alma. E o que eles fizeram dela, não é mesmo?
Nem todos puderam a encontrar. E os que encontraram...
"Aprendiz de feiticeiro sempre se dá mal."
Ela procurava pelo que não podia. Abandonava a todos e até a si mesma... Como se importar com quem não importa? Assim, tortuosamente, ela era feliz e ponto! Será que era? Tinha coisas que fingia até para si mesma. Aliais, essa era uma de suas especialidades fingir. E era uma bela fingidora e talvez não soubesse mais distinguir ande a realidade começasse e seus fingimentos terminassem.
E quantas vezes pisou o chão de nuvem com seu sexo eclodindo em plena primavera! Era ele nela e ela, se perguntando se estava nele...
Ah coração tristonho, tão dividido...Vai bailando devagarzinho num choro risonho tímido e contido. Arrasta-se e ergue-se, desabrochando-se em sonhos, em sonhos… Em sonhos…Por entre grades grossas e gigantes, cicatrizes e cortes antigos. Pela qual tua alma aprisionada vislumbra o mundo, mas não desiste e vai iluminando e docemente encantando velhas correntes amarradas a portos distantes até que os elos se afrouxem e sedam, e sedam...
Ah amedrontado coração… Calas-se pensando que esconde e apenas com o olhar responde
E todos já sabem! Oh aspirante silencioso do amor formoso, Teófilo solitário das escuras estradas de pedra, em ti somente sentimentos cabem. Deglutindo a dor do mundo seguirás cantarolando, enquanto os deuses do alto lhe observarão,sendo tua própria filosofia de vida
vivida por ti, gota a gota, transmutando absolutamente tudo em sabedoria, em amor...
Foi o que lhe disse, naquela maldita noite, aos pés do ouvido, ali a mesa. Ainda tremendo de medo fez com que o vinho dela se tornasse amargo. Ela estática, engoliu a seco sua tristeza. E então lhe contou: “Há muito tenho sonhos mortos.” Ela rangeu os dentes, encarou-o de frente e tentou sorrir...
Memórias de um passado ainda vivo que doem na alma já cansada do sofrimento. Seu e dos outros...
Aventuras amorosas. Ah esses amores, amores de aspirina…
Guardava-se tanto, sigilosamente a sua espera, constante... Até que últimas estrelas sumissem no azul profundo, e os olhos pesados decaíssem e fechassem, as marés se acalmassem e o céu se abrisse...
Orando em silêncio ao Deus dos mares, implorava-lhe tantas vezes por perdão, mas ele, sem coração, não a concedia... Era já seu peito há tanto tempo oprimido, angustiada por amar quem não devia...Em silêncio, sofria, sofria...
Um semblante tão abatido denunciava, que o amor nem sempre imbuído de razão, leva-nos por caminhos tortuosos, majestosos, mas perigosos...
Então agora ela chorava porque o encontrara...
Afogado, procurando-a enquanto ela, enquanto ela, já tão cansada, adormecera, esquecendo-se de si mesma.
“Quando nos conhecemos,
Você me enxergando,
Desceu as escadas de Perséfone,
Escorregou em fios de prata
E estendeu suas mãos até minha alma
Desde então,
A minha e a sua alma
Caminham juntas
Mesmo que não juntos nossos corpos estejam...
E então nesta noite
Neste momento,
Aonde palavras não podem ser ditas
Eu sinto,
E ressinto,
O maior amor do mundo inteiro!”
Clarice Ferreira

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