segunda-feira, 5 de novembro de 2012

CAPÍTULO 1 - AS MADRUGADAS, PARTE I



Ela chorava o choro das madrugadas infindáveis e intermináveis as quais rolava sobre sua cama tentando encontrar respostas... Todas já haviam ido embora, e seus pensamentos já confusos, triturados e reverberados sob inúmeras histórias começadas não a ajudavam em nada...

Possuía tantas identidades quanto as estrelas dos céus a se revelarem, a medida que a olhávamos, fixando os olhos, segundo a segundo. Aparecendo e surgindo aos montes, mais e mais. E ao contrário das estrelas, sentia-se sem brilho, ofuscada por lembranças de terras distantes as quais já havia iluminado e caminhado em tantos tempos distantes e longínquos...

Ela estava cansada e ás vezes cogitava que a morte ou ainda o renascimento seriam sem dúvida a melhor de todas as opções. E quando se descrevia, escondia, dentro de si mesma aquilo que não podia enfrentar.


Gotas quentes pingavam pela pela aveludada do rosto. Ela as secava, no intuito de esquivar-se escondendo do mundo a dor e o caos revirando, misturando-se, volvendo-se dentro de si, lambendo suas entranhas, tão poderoso quanto as chamas do fogo a que ela tanto amava.

Garota das estrelas, dos pés descalços, saia de cigana e tantas pulseiras e brincos levados pregados pelo corpo. Sem pudores ela se lançava recolhida ao mundo, demonstrando tanta coragem e ousadia que certas coisas realmente pareceriam inimagináveis a olhos nus....

Então fingia para si mesma e para mundo ser tantos coisas, entrando em jogos perigosos de faz de conta, fingia ser coisas que realmente não era, e no fundo era, um tanto de tantas coisas. Ficava intrigada consigo mesma, dava voltas pela casa, bebia as madrugas, engolindo sapos e lagoas sujas. Tinha coisas preciosas e negras guardadas no coração. Decidindo ser hippie, pedindo ao universo um tanto de paciência.

Ela era a mistura e fusão de alguém que teve contato com as coisas mais profundas do mundo, e depois um dia, decidiu queimar todas as suas lembranças e achando que conseguiria, caiu no engano de jogar para de baixo do tapete o passado, tentando refazer o presente, como se nada do que tivesse vivido importasse...

Ondas e oceanos transbordam dentro de si, inundando casas e vilarejos e as próprias redondezas que a circundavam. Sem pudores, sonhava, recolhia, revirava revolta como o mar. Importando sua felicidade que não conseguia mais encontrar após inúmeros traumas e circuncisões.

Tentando aprender a amar, sentia-se tão egoísta quanto as memórias soterradas dos traumas de seus passado. Apreendendo o amor, tentando deixa-lo voar, porque no fundo sabia, que o único verdadeiro amor, é aquele que liberta, deixando-se livre, caso deseje partir, ainda que parta seu coração junto...

Pedaços dela tem se repartido em pequenas e grandes partes, por todas as partes e locais pelos quais tem passado, deixando lastros infindáveis de informações controversas e confusas, devido a enorme diversidade alimentada e carregada dentro de si. Todos os dias repassava tantas lembranças, ainda emaranhas, atreladas a dor de tudo o que amou e abandonou pelo caminho... E sabe aquele momento aonde não existem mais repostas concretas para questionamentos? Desistira de achar suas respostas....

Andava com medo de chamar a Deus, e apesar de saber que só ele poderia entender aquele sofrimento que carregava em seu coração, preferiu se calar. Catou seus pedaços, guardou, e na hora certa daria-os ao pai para ele cuidar.

Semanas atrás havia largado lágrimas naquele samba, cantando alegre, como se nada realmente estivesse acontecido, e o mundo estava bem e no seu devido lugar. Ela sambava e cantava, sambava e lembrava, junto com a música que terminava, tudo o que teve e reteve e a agora escorregava por entre suas mãos.

Sob os holofotes, tanta, tanta gente aparentemente feliz, e aqueles tamborins retumbantes, ela fingia e cantava, chorando em conjunto a cuícas e pandeiros, dissolvendo a dor, o sofrimento... E ia assim, lágrimas nos olhos, coração partido nas mãos, ensaiando passos firmes no chão, erguia a cabeça, elevava os braços em sinal de alegria, sambando o adeus...

O adeus mais doído, é aquele do amor vivido e partido, esquecido, morto por inanição. E não eram só amores homem e mulher sobre aos quais ela se preocupava e remetia. Mas a todos os tipos de amores! Cativava, mas não sabia os manter. Largou amigos, parentes, empregos e amantes pela vida...

E fora assim, a medida que o samba era cantado e apagavam-se as chagas e acendiam-se os candeeiros, tudo ia embora, todas as suas memórias...” Adeus, adeus coração!”

E ela que escrevia compulsivamente desde nova, via agora as linhas que não saiam mais, assistia sua a alma a partir-se, recolher-se triste, tão triste, sufocada, pedindo ajuda, e as pessoas não sentiam, e ela mesma não sabia mais, como pedir ajuda. Enveredando por labirintos reclusos, o coração tão pequeno a espremer-se. Os olhos verdes que tremiam, mãos soadas tentando tocar o mundo em marés cinzas lhes dizendo que tudo vem, tudo se vai... E nem sempre retorna. Nem sempre retorna...

Lembranças turvas, faziam do tempo, um solitário companheiro.

Vento misterioso das madrugadas frescas entre lassadas entre espinhas dorsais, coxas, pernas, coração e alma...

Qual é o problema deste seu sorriso quente circundando geleiras inatingíveis?

Torna-se tão perigoso quando frio começa a mudar de estação... E ela , pequena aprendiz desvinculada e desnaturada, sem saber, em belezas podres de quem já teve mística e magia, alinhados a olhos e corações, sem seus pesos e responsabilidades subsequentes, brincou com as estrelas, reluzindo tão naturalmente... Que ainda que eu dissesse que seu sorriso iluminava a noites não soaria nada clichê...

E então se pergunta: “Se abrir os braços, o peito, o espírito e deixar rios antigos fluírem e transbordarem dentro e fora de mim, unindo-se a afluentes incontáveis seria o mais indicado. Quando o prudente nos parece o mais seguro e tão, tão chato.”

Já conhecia essas terras, e por quanto tempo elas andam secas, sedentas de vida!

E talvez a chegada turbulenta de todos aqueles pensamentos e sentimentos seja sinal dos tempos. Lotus negra insinuando-se ainda sobre si mesmo. O universo se abre, e quando ele convida.... É melhor se estar preparado para se observar no espelho da vida.

Recolheu seus pedaços, saiu pela rua a procura de uma xícara quente de chá, pronta para reconfortar um tanto sua alma já meio perdida, meio rachada, entre fissuras e pancadas...

Quis celebrar um pouco essa coisa inconstante e mutável que é a vida! Decidindo estar sóbria diante das mudanças. Vagabundeando de forma irresponsável e boêmia por caminhos coloridos abrindo-se diante de dela Decidiu não vou mais negá-los! Viesse o que viesse. Mesmo surgindo as coisas mais feias e repugnantes de si mesma.

Quanto a esse medo súbito que lhe vinha de vez em quando, do novo e desconhecido, de estar, de ficar sozinha ah... Fingiu, deixou isso para lá... Novas vidas virão e se sucederão dentro dela, só Deus mesmo para saber por onde esses ventos novos a guiarão... Esse ser tão mutante quanto um caleidoscópio de murano advindo das mãos dos mais detalhista dos artesãos.

Ser feliz sempre tinha sido uma escolha, não uma consequência proveniente de acontecimentos. Ai que felicidade deliciosa que não consegue mais sentir na brisa datarde, neste chá já meio morno de ervas frescas.... Ela tinha saudades, tinha saudades de ser feliz.

Em seus momentos, em alguns momentos, podia sentir: Era quase feliz, quase rindo, quase indo, quase nua para vida, quase pronta para ser autenticamente ela mesma... Não, quem dera, ela não estava pronta! Distante mente pronta.

Houveram noites que andara namorando a lua da janela, ela era linda. Impressionante era mesmo como a Lua não parecia abater-se perante nenhum acontecimento. Ela era linda, redonda e deslumbrante e ponto. Dane-se o mundo, ela estava lá e nunca deixara de ser inspiração para quem por ela quisesse ser inspirada.

Sentiu inveja da Lua...

Borboletas dançavam no seu ventre, mistificando-se a um quê de amores, a um quê de vida (que não vivia), a um quê de amores (que não amava), a um que de sonhos (que não sonhava). E sensualidades sortidas pelos ares noturnos, insinuavam-se, sorvendo e volvendo, desejos ocultos e sensações, as quais negava, pois não as queria mais ter.

Trancava-se, fugia...

Saiu por ai, como uma boêmia desvairada. Afinal de contas era isso que ela era no fim, bem no fim, quando não disfarçava. E não teve muitos cuidado para esconder sua ausência de dignidade e pudores, foi despida de preocupações sócio ambientais que afundou-se ainda mais. Mergulhando em lados bs encantadores por sua beleza proibida e torta. Cansada de rotinas tão, tão chatas e não úteis, mas ela diria: “Sim, não inúteis e sim, são monótonas.” Lançou-se e foi, a procura de novos ventos, livres, liberais, libertários!

Entre lassada à negrescas clandestinidades, que a perseguiam desde a primeira infância, sem medos ladeou a lua, meio boemia meio sonhadora, meio doce.. Com todas as suas sensibilidades a flor da pele, amores saltando aos olhos, namorando seus espelhos e reflexos nus, atrelados a encantos noturnos misteriosos, sentiu-se em casa, e por um segundo, poderia até dizer que sua alma sorriu.

Clarice Ferreira

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